sexta-feira, 18 de novembro de 2011

DO “CREDERE” AO FIDELIZAR

(Mt 14,22-33)
D

e todos os que relataram a cena de aparição de Jesus caminhando sobre as águas (cf. Mc 6,45-52; Jo 6,16-21), somente Mateus que mencionou o nome de Pedro, apelidado como homem de muita crença em Jesus de Nazaré, mas de fidelidade fraca ao Cristo da fé, pois se deixa dominado pelo medo e pela incerteza (vv. 30-31). Além de Pedro, há também no barco os discípulos e os outros. Com essa menção do autor nos faz entender que o relato é carregado de simbolismo: a pessoa de Pedro, o barco, o vento e o caminhar de Jesus sobre as águas. O texto conclui com uma declaração de fé coletiva (sensus fidelium = sentido da fé coletiva ou, intuição cheia de graça divina) do grupo que estão no barco da vida: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus” (v.33).
O barco representa a própria comunidade cristã mateana tendo Pedro como seu líder; nessa comunidade estão reunidos os discípulos e os seguidores ou, talvez os novos membros que acabaram de ingressar na comunidade-Igreja recém-nascida. O vento, na bíblia representa a presença do Espírito dinamizador; porém nesse caso o vento é símbolo de forças desafiadoras, talvez quisesse dizer sobre a situação que a comunidade-Igreja está vivendo naquele momento. O desafio era tanto que metia o medo e abalava a fé de toda a comunidade, começando com a fé e confiança do próprio líder. A comunidade é completamente dominada pelo temor e incertezas, tudo está escuro, parecia sem saída. Para poder superar o desafio e salvar a comunidade dessa turbulência, o líder precisa reter coragem e tomar a atitude mais rápida,rezando pedindo o socorro ao Senhor para conduzir o barco da vida atravessar a agitação das ondas do desafio para o outro lado, dizendo: como Moisés conduziu seu povo atravessando o mar vermelho, da mesma forma pedimos que “Senhor, se és tu, mande-me ir ao teu encontro” (v.28). Jesus é o novo Moisés da nova Aliança. Moisés era o servo fiel do Senhor-Adonai, por isso precisava de ajuda de YHWH na travessia do mar vermelho, mas Jesus é o Filho amado e que tem poder sobre as forças da natureza. O caminhar sobre as águas representa esse poder que Jesus tem sobre as forças do mundo.
A mensagem que o autor quer nos passar é clara: a importância da fé do indivíduo como elemento nuclear da edificação da vida de fé comunitária e que faz com que todos, finalmente, em uma só voz clama: “verdadeiramente, tu é o Filho de Deus”. É uma proclamação de fé eclesiológia e soteriológica em Jesus Cristo como Senhor e Salvador da humanidade. No meio do desafio é precisa de muita fé e unidade. Não basta crer, é precisa de amadurecimento na fé e ser fiel. A crença somente nos afunda, mas a fé profunda nos faz ressurgir e nos salva de qualquer tempestade de vida. É de suma importância fazer passar do crer (ser crente) ao fidelizar (ser fiel). Pois a crença é a fé duvidosa, imatura e incerta, mas o fiel é a vida de fé amadurecida e aprovada pela real experiência de vida, por isso mesmo, ela é seguro, firme, resistente.
A quem recorremos quando nossa vida passava pelas turbulências? Cremos em Jesus somente ou devemos crescer e amadurecer na fé nele? O que fazemos quando nossa comunidade vive a mesma situação, mobilizamos a comunidade para juntos superar o desafio ou ficamos com medo e deixa cada um se vira? Um líder medroso, imaturo, sem criatividade e duvidoso só levar a comunidade a arruinar e, por fim, afundando aos poucos. Liderar é saber lidar com as diferenças, com os desafios, saber co-ordenar e não mandar de cima, mas saber dialogar com todos para procurar as saídas prováveis.
_______&&&_______ BH., 18/11-2011
Lukas Betekeneng

DO EDIFÍCIO MATERIAL AO EDIFÍCIO ESPIRITUAL

(Lc 19,45-48)
J

erusalém é a meta final da jornada de Jesus lucano desde a Gelileia, mas o templo é o objetivo principal de sua entrada na cidade. No templo que ele foi apresentado pelos pais, reencontrado mais tarde no meio do povo dialogando com os presentes, trocando as sabedorias e os conhecimentos com as pessoas, foi reconhecido e admirado por todos (cf. 2,22-33; 2,41-50). No templo (sinagoga) também que ele se reuniu com os discípulos, seguidores e multidões para orar e adorar a Deus, para escutar a Palavra-Vida e partilhar a reflexão, para anunciar a atuação do Espírito do ABBA-Pai na sua programação missionária da salvação-libertação no mundo (cf. 4,18), por causa de declaração de amor pelo templo como casa de oração e adoração e de ser filho de Deus ele foi preso, julgado e condenado à morte, e morte na lenha da cruz (cf. 22,66-71; Mc 11,15-19; Mt 21,12ss; Jo 2,13ss; Sl 69,10). E no templo que os discípulos se reuniram para rezar e anunciar a Boa-Nova (cf. 24,53; At 2,46; 3,1ss; 5,12).
O templo cuja função como espaço do encontro entre o ser humano entre si e com Deus, como escola de oração, de adoração e de formação de vida mística e espiritual, o símbolo da justa unidade indivisível, tanto na dimensão vertical quanto horizontal, como exteriorização da realidade de vida interior onde reside o Espírito do Criador divino, foi usado como lugar onde se pratica a injustiça e a impunidade ou, covil de ladrões e a divisão dos povos.  Por isso, a entrada no templo, segundo autor da comunidade lucana do Evangelho, é visto como ato de tomada de posse para purificá-lo e, enfim, devolver a sua função original como casa de oração (v. 46). No templo, o evangelista não fala da reação dura de Jesus quando encontrou com a realidade da função do templo como lugar de comércio, mas apresenta um novo elemento: Jesus está no meio do povo, todo o dia, para ensiná-lo.
Assim, o povo (o coração do povo) de Deus é, a partir de agora, o novo espaço de encontro entre o ser humano consigo e entre si e com Deus, o novo lugar de oração e adoração (cf. Mt 6,6). O ser humano como imagem e semelhança de Deus é, em Cristo, confirmado como templo do Espírito Santo criador (cf. 1Cor 6,19), substituindo, dessa maneira, o templo de Jerusalém. O movimento de Jesus supera a crença institucionalizada da religião, enquanto sistema, fazendo passar para a fé religiosa que é a parte de natureza humana divinizada e divina humanizada. O povo é, agora, tem liberdade de se aproximar a Deus, como na palavra de Leonardo Boff, o Pai-maternal e Mãe-paternal e filial.
Como que estamos vivendo a nossa fé? Estamos cuidando o nosso coração como lugar de oração e adoração ou espaço comercial onde se pratica todo o tipo de maldade: a injustiça, a negação do direito e da liberdade, a exclusão das diferenças para manter o status quo, o afastamento do indivíduo comunitário em benefício do individualismo institucionalizado (a prática do poder pelo poder usando e abusando camufladamente atrás da bandeira do serviço). Como estamos tratando o nosso coração, usando-o como lugar onde reside o Espírito da vida ou como quarto onde se planeja a morte, como lugar do bendizer ou de fofoca, de ódio, de desgosto, e de discriminação? Não raramente usamos o nosso coração para a prática do mal em nome de Deus, da religião, da instituição e da lei. É uma verdadeira hipocrisia que devemos repensar, assim, para fazer a religião cada vez mais humana e divina, ao mesmo tempo, mais justo e digno de ser crida e vivida. Tudo isso e, muito mais, é o desafio real para todos aqueles que se chamam de cristãos.
______&&&______ BH., 18/11-2011
Lukas Betekeneng

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O MEDO APRISIONA E MATA! O AMOR LIBERTA E DAR A VIDA!

(2Mc 7,1.20-31; Lc 19,11-28)

A
O medo conduz à morte, a coragem às estrelas
(Séneca)[1]
 fidelidade creativa é o sinal de amor maduro, equilibrado, libertador e salvador. Quem ama cuida! Quem ama verdadeira e profundamente não tem medo de ser creativo e inventivo, não tem medo de fazer o novo acontecer. O medo aprisiona a coragem, corrói a confiança e mata as potencialidades, os talentos. Mas, ter coragem também não significa absolutamente a ausência do medo, muito pelo contrário, a superação dele, a resistência do medo. A coragem é a potência da fé, a energia do desejo de viver, crescer e amadurecer e que toma forma de disposição para inventar e reinventar encarando o desafio com confiança e esperança dos dias melhores.
A fé madura supera até o medo da dor e da morte (cf. 2Mc 7,1.20-31). Nesse texto de Macabeus, o autor relata a força da fé de uma mulher testemunhando a morte de seus filhos. A mulher foi obrigada para convencer seus filhos a abandonar sua fé, mas tudo foi em vão, pois todos preferem entregar a vida na boca da morte do que negar a sua própria experiência de Deus como aquele que já se demonstrou ao longo da história, a fidelidade e a segurança. A fé não é algo que se transfere, mas se adquire através da partilha, do testemunho. A crença pode ser abandonada, mas não com a fé.
Lucas desenvolve seu texto-parábola dos talentos enriquecendo os elementos paralelos de Mateus (cf. Mt 25,14-30) e adaptando-os ao seu ambiente cultural. Tanto Lucas quanto Mateus têm o mesmo objetivo: criticar a improdutividade da vida de fé, fruto de experiência negativa do Iahwe como um Senhor severo que mete o medo (v. 21), um Deus vingativo e condenatório. Contudo, se diferem no seu protagonista principal. Jesus de Mateus é associado a um rico comerciante que viajou ao país distante ao passo que o de Lucas, a um nobre, que parte para receber a investidura régia. Esse acréscimo do coroamento é a maneira própria de Lucas quer atender a expectativa popular do Reinado de Deus (v. 11)[2]. O vestígio desse relato se encontra também em Marcos (cf. Mc 13,34).
O medo é o extremo da ignorância, o sinal da infidelidade afetiva e fraterna no convívio relacional, a infertilidade da vida de fé, o preconceito contra vida; o arrojo é o começo do desrespeito, da covardia e a moderação é a identidade do amor maduro, equilibrado e responsável. A fé nos dá força para crescer e amadurecer, a coragem nos impulsiona para avanças e o amor nos capacita para amar criativamente sem medo.
Mas quem, afinal, representa esses três empregados? Assim, como Mateus também Lucas quer afirmar a mesma realidade: Jesus é mais aceito e esperado pelos pequenos e abandonados, injustiçados e oprimidos, excluídos e marginalizados, mas rejeitado pelos lideres religiosos e políticos do seu próprio povo. Os dois primeiros empregados representam todos aqueles que reconhecerem Jesus como messias e acolherem suas mensagens, enquanto que os líderes religiosos e políticos se fecham na fé ingênua e o desprezaram.
________&&&_______ BH., 16/11-2011
Lukas Betekeneng


[1] Lucius Annaeus Seneca é um filósofo no tempo imperial romano.  Nasceu no ano 4 aC, em Córdoba , Espanha, e faleceu no ano 65 dC. Sua obra literária e filosófica, tida como modelo do pensador estóico durante o renascimento. Serviu também como inspiração para o desenvolvimento da dramaturgia europeia renascentista.
[2] Esse acréscimo também tem como pano de fundo os acontecimentos históricos que Lucas aproveitou para ilustrar seu relato: com o falecimento do Herodes Magno no ano 4 aC., um de seus filhos, o Arquelau, tinha ido a Roma para obter do Augusto, o imperador do então, a ratificação do testamento que lhe dava o governo da Judeia e o reconhecimento do título como rei.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A IGREJA RUMANDO À META

(Lc 18,35-43)
A

 Igreja de Cristo nunca para, sempre em movimento, sempre em viagem, já está no caminho, mas ainda não chegou no seu destino, por isso continua no caminho em direção à Jerusalem celeste, como na palavra de Karl Rahner, a Igreja “já está na meta e rumo à meta”. Esse texto lucano do Evangelho nos mostra essa realidade de caminhada de Jesus rumo à sua meta, que é também a caminhada da própria Igreja. O caminho é feito para ser transitado, trilhado e não para ficar parado nele. Quem ficar parado no caminho atrapalha o trânsito e, consequentemente, dificulta todos os outros caminhantes que querem continuar marchando rumo à sua meta. Quem decidir de continuar caminhando já sabe (ou, pelo menos procurar saber) as consequências que tem que assumir com maturidade e equilíbrio, e ninguém pode nem tem direito de tentar impedi-lo de caminhar (cf. 13,32; Mt 16,23; ).
Esse caminho de Jesus rumo a Jerusalém, a cidade de Jericó é a penúltima etapa de sua viagem. E a cura do cego realizada nessa cidade é o último cumprimento de sua programação missionária como o enviado de Deus, desde a Galiléia à Judeia (cf. 4,18). Jesus tem consciência de sua missão: testemunhar a experiência do amor gratuito de Deus no amor pelo próximo, isto é, revelar ao mundo o rosto luminoso, amoroso, libertador, compassivo e misericordioso do Deus-amor. No cumprimento de sua missão, Jesus se comparou como fonte de água da vida que jorra sem parar para saciar toda a sede daqueles que o procuram (cf. Jo 4,13). Como água que corre do alto e que todas as vidas que estão no seu caminho recebem a vida em abundância (cf. Jo 10,10). Como água que não despreza nem discrimina e nem rejeita, mas acolhe com gratidão e respeito todas as raízes que a procuram (Jo 6,37), assim foi o modo de viver e agir de Jesus histórico e, assim também deveria ser o viver e agir da Igreja.
Há dois pontos importantes que o autor ressalta nesse pequeno texto: proclamação messiânica de Jesus como filho de Davi, feita pelo mendigo cego que está sentado na “beira do caminho” (representa as pessoas excluídas da sociedade) e a declaração de Jesus a respeito da fé do cego (vv. 38. 42). Além disso, o autor ressalta também a pedagogia de caridade do líder Jesus lucano: caridade a partir do sujeito. Jesus de Lucas não faz caridade assistencial e promocional, mas libertador. Trata a pessoa como sujeito ativo, conscientizando-o como alguém que é capaz de libertação e salvação. Por isso pergunta: “O que queres que eu faça por ti” (v. 41)? É esse tipo de caridade libertador que resulta no auto-reconhecimento e reconhecer o outro como diferente. Assim, o cego reconhece Jesus como o enviado de Deus e Jesus, por sua vez, reconhece a profundidade da fé do cego. Mais do que reconhecer a fé do cego, Jesus declara o sensus fidei (o sentido da fé do indivíduo ou, a intuição cheia de graça) do pobre cego que faz com que ele se integra no grupo de seguidores do Nazareno como ato de agradecimento e de louvor a Deus (v. 43).   
Aqui está a sutileza da ironia do autor: quem reconhece Jesus como messias e acolhe suas mensagens são pessoas que não fazem parte da sociedade: os forasteiros, ribeirinhos e marginais. Os líderes religiosos e políticos – que deveriam mostrar o exemplo de cuidado – mandaram o cego calar a boca: “As pessoas que íam na frente mandavam que ele ficasse calado” (v. 39). Mas Jesus demonstra a atitude diferente, “parou e mandou que levassem o cego a ele” (v. 40). Que o espírito acolhedor e libertador do Ressuscitado reine na sua Igreja, nos corações de todos os cristãos. Ou seja, que os cristãos sejam um alter Christus para o mundo de hoje.
_______&&&_______ BH. 14/11-2011
Lukas Betekeneng

domingo, 13 de novembro de 2011

A VIGILÂNCIA CREATIVA E PERMANENTE: EXIGÊNCIA BÁSICA DA VIDA CRÍSTICA

(Pr 31,10-13.19-20.30-31; 1Tes 5,1-6; Mt 25,14-30)
Q

uem é essa mulher que os sábios estão falando (1ª Leitura)? Por que Deus não deu o aviso sobre o dia e a hora de sua chegada (2ª Leitura)? Quem é esse juiz que deu sentença tão dura contra o terceiro servo nesse julgamento final de vida (Evangelho)?
Na primeira leitura, o sábio fala de características de mulher virtuosa: mulher de fé, caridosa, creativa, humilde e serena, prudente, madura, equilibrada e responsável que atrai as bênçãos de Deus para a sua própria vida e a de todos aqueles que convivem com ela. Essa mulher é o sonho de todas as almas, o símbolo da beleza interior, fonte de esperança e confiança de todos os espíritos, razão da busca de todos os gostos humanos, motivo de alegria para toda a humanidade. Mulher assim será capaz de afastar qualquer perigo que ameaça a união comunial, de anular todo o tipo de desconfiança, de neutralizar qualquer medo de infelicidade. É a maneira de viver a vida numa vigilância constante sem exagero, e que não se apega ao ilusório e nem se ilude com a aparência, muito pelo contrário, uma mulher sábia procura sempre o essencial com maturidade, equilíbrio, creatividade e, acima de tudo, com a responsabilidade. A mulher com essas descrições raramente se encontra no mundo de hoje. Quem é, afinal, essa mulher?
Aqui, o autor não está falando de mulher qualquer, pois é uma linguagem poética e espiritual, portanto a mulher aqui tem sentido figurado. Como sabemos que na mística e espiritualidade dos judeus, a mulher-modelo e amante-esposa é associada ao povo de Israel tendo o próprio Senhor Iahweh como seu amado-esposo, seu refúgio e protetor. A mulher que o autor fala nesse texto é, portanto, o próprio povo de Israel. Seria como mulher-modelo de vida e de fé para todas as nações que crer em Deus.
Através de sua carta aos cristãos Tessalonicenses, o apóstolo Paulo nos exige uma vida de sempre em prontidão para não ser surpreendido com a chegada do dia do Senhor, pois ninguém sabe nem o dia nem a hora, mas será como ladrão de noite (v. 2). Essa é a característica da vigilância cristã: uma vida de vigilância permanente. Isso só é possível na medida em que se reconhecer como filho da luz que vem do “alto”. Assim, quem é da luz procura viver na luz e quem é da noite prefere ficar no escuro. O Apóstolo define os cristãos como filhos da luz e do dia, por isso devem permanecer na luz, isto é, sempre procurar viver de acordo com a vontade de Deus: fazer acontecer a justiça, promover a paz e a liberdade, preservar a dignidade da vida, própria, do próximo e a dos demais; respeitar o direito dos outros, trabalhar para a união de todos os filhos de Deus, divulgar o amor-caridade para com toda a humanidade. Deus não quer que o ser humano leve uma vida receosa, vive contando minutos de sua vida; ele quer os seus filhos sejam felizes e tranqüilos. Mas para isso, precisa de serenidade, de prudência, de cuidado, de fidelidade, de responsabilidade e maturidade.
 O texto da comunidade mateana nos apresenta um relato-parábola sobre o modo de vida vigilante creativo. É esse viver creativo que serve de advogado quer de acusação quer de defesa no julgamento final de nossa vida existencial. Ou seja, a nossa própria consciência, do bem e/ou do mal, que nos afasta ou nos aproxima da face amorosa e misericordiosa de Deus no juízo final. O amor de Deus está dado, a decisão agora é toda nossa: aceitar ou recusar essa oferta, tudo depende de nossa livre opção, de nossa responsabilidade.
Deus nos colocou neste mundo já com “equipamentos” prontos para ser operado: um pedaço de cérebro para raciocinar o intelecto e um coração para sensibilizar o afeto e um par de rins para nos mobilizar de forças de vontade para ser, viver e agir. Nesses três centros humanos que estão guardados todos os Dons divinos necessários para serem desenvolvidos em prol da felicidade de vida, própria e a dos outros. Assim, Deus nos criou como um ser tricêntrico: centro racional, centro afetivo e vontade. O coração onde reside o espírito de Deus é o centro peneirante para a vida e ações, segundo a mística dos sábios orientais. Esses três centros humanos que, também, representam o conjunto de equilíbrios humanos, internos e externos.
O assunto principal nesse texto que nos chama a atenção não é tanto sobre os dois primeiros servos, mas sobre o terceiro. O texto também carregado de simbolismo que também merece a atenção. Por exemplo, em relação aos números. Quem são as pessoas comparadas com a mentalidade do terceiro servo nessa parábola? Os três servos que receberam a confiança do seu Senhor talvez sejam as três categorias de povos: os simples fiéis (os proletários), as nobrezas ou, que responsáveis pela Torá (os escribas, os levitas, os saduceus e fariseus) e, por fim, os novos membros dos demais povos (os “pagãos”). Os cinco talentos podem representar os cinco rolos da lei de Moisés; os dois talentos representariam as duas tábuas de pedra e, por fim, um talento representaria a fé no Deus único de Israel.
O terceiro servo que guardou o bem a ele confiado representa a classe nobre da sociedade judaica: os escribas, fariseus, saduceus e levitas. E os dois primeiros são os simples fiéis e os pagãos. São eles que reconheceram Jesus como Messias, acolherem seus ensinamentos e o seguiram no seu caminho. Enquanto que os líderes religiosos se fecharam no tradicionalismo estéril, gelado e frio sem vida nem creatividade. Essa realidade também é um desafio concreto, hoje, para a nossa Igreja, as nossas comunidades religiosas, nossas famílias e sociedade como um todo. Não vale a pena levar uma vida seguindo a tradição pela tradição e a lei pela lei sem nenhuma abertura para as novas perspectivas e nem o desenvolvimento das capacidades creativas para a renovação e/ou a adaptação.
Todo o conservadorismo, tradicionalismo e radicalismo são, do ponto de vista da mística e espiritualidade, a pior traição consciente que existe na vida em todos os sentidos e níveis, a calosidade, o empobrecimento, o enfraquecimento, a desidratação, o envelhecimento, o processo certo rumo a morte definitiva. Melhor errar na creatividade da contínua busca do novo para enriquecer, renovar, atualizar e rejuvenescer do que ter medo de tentar. O tradicionalismo, o conservadorismo e o radicalismo são viroses que atacam as células e destroem as potencialidades do desenvolvimento creativo dos dons e talentos, tanto na sociedade, nas famílias, nas políticas quanto nas religiões em geral e nas igrejas cristãs em particular e, principalmente nas congregações e comunidades religiosas.
Seja creativo, corajoso, sereno, inventivo, humilde, confiante, maduro e equilibrado, na vida e no trabalho, aqui dentro e lá fora. Seja fiel, não no sentido de guardar e proteger toda herança de vida do passado repetir o mesmo como tal e qual quando foi dado por toda a vida até a vinda do dia do Senhor, mas na coragem de inventar e reinventar creativamente em cada momento, atualizando e adaptando conforme a necessidade em vista da sobrevivência e da continuidade do carisma fundacional de vida e do amor salvífico.  
________&&&________ BH, 13/11-2011
Lukas Betekeneng

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O JUIZO FINAL DE DEUS SE REALIZA NO ESPAÇO E TEMPO DE NOSSA VIDA EXISTENCIAL

(Lc 17,26-37)
L

endo o título, pode provocar em nós, que temos uma mentalidade de dogmatismo tradicional ou, a espécie de repetidores (talvez como seguidores ou, simples simpatizantes) desse grupo, um certo clima de estranheza e até mal estar psicológico. Isso, porque não fomos educados de outra maneira, nem para pensar um pouco diferente com uma visão mais crítica, e quase nunca ouvimos alguma coisa diferente em relação a isso. Sempre fomos adestrados mais para escutar e acreditar engolindo cruelmente o “sapo” de olhos fechados em nome da fé que perguntar criticamente, opinar ou até criticar, também, em nome de uma e mesma fé para ser mais saudável e madura. E, então perguntamos: o juízo final será em nossa vida no aqui e a gora existencial ou no além-túmulo, depois de nossa morte física?
A manifestação do reino de Deus era esperada em um sentimento de saudade intensa do passado, juntamente com uma esperança forte da vinda do Messias prometido (cf. 3,15). E esse momento seria o tempo de julgamento final e da recompensa definitiva (cf. Jl 2,1-2; 3,4-5). Esses assuntos – a manifestação do reino e a vinda do Filho do Homem ou, o Messias prometido – eram realmente muito vivos, principalmente, naquele contexto de luta pela libertação do povo contra a colonização e opressão estrangeiras: político, social, econômico e cultural. De tanto esse clima de espera que fez com que os grupos apocalípticos tentaram fixar um calendário da chegada do reino de Deus, procurando os sinais extraordinários, nos céus e na terra como: guerras, terremotos, tempestades, doenças, etc. Ao passo que os fariseus procuravam manter viva essa ânsia no povo e apressar a vinda do reino com a observância rígida da lei e a austeridade de vida penitencial. Toda essa tentativa manipuladora para enganar o povo, tanto por parte dos apocalípticos quanto dos fariseus, toda foi rejeitada por Jesus. Para o Nazareno, a “vinda do reino de Deus não é observável” (cf. v. 20).
Mas por que Lucas ainda reproduz essa situação de esperança profunda e perplexidade intensa em ralação com a manifestação do reino de Deus e a vinda do Messias, se na prática essa realidade já passou de duas gerações do movimento jesuânico (dos cristãos)? O que está acontecendo, de fato, na comunidade-Igreja lucana do Evangelho? Será que havia surgido no meio do povo um certo fenômeno de desânimo, uma espécie de esfriamento do entusiasmo da vida de fé na comunidade? Esses questionamentos surgiram à tona pelo fato de o autor coloca esse relato escatológico exatamente no início de seu Evangelho, enquanto que normalmente se coloca mais no final.
Tudo parece que, quando o Jesus lucano não concordou com a ideia ilusória de uma vinda imediata e de forma extraordinária do reino de Deus, a esperança e a espera tinham se esmorecido. O líder da comunidade não perdeu, contudo, o método de acompanhamento e nem a criatividade no trabalho de reanimação. Ele, então, completa a fala de Jesus sobre o reino, com um “tom apocalíptico”, usando alguns de seus ditos sobre a espera vigilante. O futuro esperado, para esse líder, possui, agora, o rosto do Nazareno, o Cristo-irmão compassivo e misericordioso, o Filho do Homem e de Deus humilhado e desprezado até a morte, mas por Deus ele foi ressuscitado e glorificado, e reconstituído, para toda a humanidade, o juiz.
Para o Jesus lucano, o julgamento de Deus (a manifestação do reino e a vinda do Filho do Homem) não acontece fora de nossa história (após-morte). Ele acontece neste mundo do aqui e agora, dentro de nossa história existencial, do nosso cotidiano de vida, e sem sinais extraordinários. Assim, “como aconteceu no tempo de Noé e de Ló, o mesmo acontecerá no dia em que o Filho do Homem for revelado” (vv. 26-30). Por isso, exige uma atenção constante e estar sempre em estado de prontidão para que não seja pego de surpresa. Pois quando chegar a esse julgamento, ninguém pode mais fazer nada nem para ajudar a salvar e/ou defender a vida dos seus familiares, parentes e/ou amigos (vv.34-36). Por isso afirma: “Quem procura ganhar a sua vida vai perdê-la, e a perde vai conservá-la” (v. 33). É de suma importância educar a vida sempre livre do apego às riquezas para poder prestar a atenção na manifestação do Senhor (cf. Sb 13,1). Precisa viver com o pé no chão e com os olhos fixos a Cristo, e a esperança e confiança firme no amor do Pai. Ou seja, é preciso deixar a vida carregada pelo Espírito do amor de Deus. Não há o julgamento coletivo de Deus, cada um é responsável por aquilo que faz na sua vida: o bem e/ou o mal. São esses atos que vão ser os seus advogados de defesa ou de acusação no dia do Senhor.
Seja vigilante e justo, simples e humilde, manso e amoroso, compassivo e misericordioso. “Que o seu amor seja sincero e sem hipocrisia, detestando o mal e apegando ao bem” (cf. Rm 12,9).
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Lukas Betekeneng