(Lc 18,35-43)
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Igreja de Cristo nunca para, sempre em movimento, sempre em viagem, já está no caminho, mas ainda não chegou no seu destino, por isso continua no caminho em direção à Jerusalem celeste, como na palavra de Karl Rahner, a Igreja “já está na meta e rumo à meta”. Esse texto lucano do Evangelho nos mostra essa realidade de caminhada de Jesus rumo à sua meta, que é também a caminhada da própria Igreja. O caminho é feito para ser transitado, trilhado e não para ficar parado nele. Quem ficar parado no caminho atrapalha o trânsito e, consequentemente, dificulta todos os outros caminhantes que querem continuar marchando rumo à sua meta. Quem decidir de continuar caminhando já sabe (ou, pelo menos procurar saber) as consequências que tem que assumir com maturidade e equilíbrio, e ninguém pode nem tem direito de tentar impedi-lo de caminhar (cf. 13,32; Mt 16,23; ).
Esse caminho de Jesus rumo a Jerusalém, a cidade de Jericó é a penúltima etapa de sua viagem. E a cura do cego realizada nessa cidade é o último cumprimento de sua programação missionária como o enviado de Deus, desde a Galiléia à Judeia (cf. 4,18). Jesus tem consciência de sua missão: testemunhar a experiência do amor gratuito de Deus no amor pelo próximo, isto é, revelar ao mundo o rosto luminoso, amoroso, libertador, compassivo e misericordioso do Deus-amor. No cumprimento de sua missão, Jesus se comparou como fonte de água da vida que jorra sem parar para saciar toda a sede daqueles que o procuram (cf. Jo 4,13). Como água que corre do alto e que todas as vidas que estão no seu caminho recebem a vida em abundância (cf. Jo 10,10). Como água que não despreza nem discrimina e nem rejeita, mas acolhe com gratidão e respeito todas as raízes que a procuram (Jo 6,37), assim foi o modo de viver e agir de Jesus histórico e, assim também deveria ser o viver e agir da Igreja.
Há dois pontos importantes que o autor ressalta nesse pequeno texto: proclamação messiânica de Jesus como filho de Davi, feita pelo mendigo cego que está sentado na “beira do caminho” (representa as pessoas excluídas da sociedade) e a declaração de Jesus a respeito da fé do cego (vv. 38. 42). Além disso, o autor ressalta também a pedagogia de caridade do líder Jesus lucano: caridade a partir do sujeito. Jesus de Lucas não faz caridade assistencial e promocional, mas libertador. Trata a pessoa como sujeito ativo, conscientizando-o como alguém que é capaz de libertação e salvação. Por isso pergunta: “O que queres que eu faça por ti” (v. 41)? É esse tipo de caridade libertador que resulta no auto-reconhecimento e reconhecer o outro como diferente. Assim, o cego reconhece Jesus como o enviado de Deus e Jesus, por sua vez, reconhece a profundidade da fé do cego. Mais do que reconhecer a fé do cego, Jesus declara o sensus fidei (o sentido da fé do indivíduo ou, a intuição cheia de graça) do pobre cego que faz com que ele se integra no grupo de seguidores do Nazareno como ato de agradecimento e de louvor a Deus (v. 43).
Aqui está a sutileza da ironia do autor: quem reconhece Jesus como messias e acolhe suas mensagens são pessoas que não fazem parte da sociedade: os forasteiros, ribeirinhos e marginais. Os líderes religiosos e políticos – que deveriam mostrar o exemplo de cuidado – mandaram o cego calar a boca: “As pessoas que íam na frente mandavam que ele ficasse calado” (v. 39). Mas Jesus demonstra a atitude diferente, “parou e mandou que levassem o cego a ele” (v. 40). Que o espírito acolhedor e libertador do Ressuscitado reine na sua Igreja, nos corações de todos os cristãos. Ou seja, que os cristãos sejam um alter Christus para o mundo de hoje.
_______&&&_______ BH. 14/11-2011
Lukas Betekeneng
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