segunda-feira, 12 de novembro de 2012

DIREITOS HUMANOS

A ONU (Organização das Nações Unidas) aprovou, hoje, 12/11-2012, a entrada da Venezuela - e Brasil - no CDH (Conselho de Direitos Humanos), juntamente com os demais países: Argentina, México, Uruguai, Alemanha, Coreia do Sul, Costa do Marfim, Emirados Árabes Unidos, Estônia, Etiópia, Gabão, Irlanda, Japão, Cazaquistão, Quênia, Montenegro, Paquistão, Serra Leoa e Estados Unidos. O processo, segundo informa o jornal, foi realizado de modo democrático. O que me estranhou foi as reações negativas de algumas organizações como HRF (Human Rights Fundation) e UN Watch. A razão da crítica foi, segundo informa, por causa do descumprimento dos requisitos pelo governo de Hugo Chaves como aquele que deveria promover a proteção dos direitos universais do homem. Apesar de tudo, parabéns para Venezuela!
No meu ver, nenhum governo neste planeta que não abusa os direitos humanos. Todos os governos cometeram e ainda cometendo, consciente ou inconsciente, de maior ou menor grau, os direitos humanos em nome das ideologias quaisquer. A minha pergunta é essa: essas organizações protestam ou criticam, da mesma forma, quando o premio Nobel da Paz foi dado para a União Europeia, um continente que promove mais guerras camufladas de bandeira da paz, da liberdade, do direito? Um continente que mais mata o ser humano do que as outras nações quaisquer ao longo da história da humanidade?
A Venezuela e o Hugo Chaves estão dentro de cada um de nós. Se a premiação do Nobel foi como uma ação política pedagógica para chamar a atenção e conscientizar os governos dessas nações em relação ao problema real do que por causa de seu merecimento, parece-me que a escolha da Venezuela para integrar no CDH também foi uma ação política pedagógica e não pelo merecimento. Assim, nenhum país é melhor do que outro em relação aos direitos humanos, à democracia e à liberdade, etc., portanto, não existe nenhum país neste planeta que realmente tem mais merecimento do que os demais países. Na minha modéstia opinião, em vez de agir autoritariamente, a ONU está tentando promover um outro caminho político, mais pedagógico, de promover a paz e os direitos universais para a vida humana e a do planeta. Em vez de criar confronto desnecessário contra qualquer governo de qualquer nação e que provoca tensões e atritos políticos entre as nações, a entrada da Venezuela no Conselho de Direitos Humanos é uma chamada a responsabilidade e não foi por causa do seu crédito político nem o merecimento do seu líder.
Espero que os governos das nações aprendam mais a governar com o espírito mais humano, promovem mais a paz pela paz, sociabilizam cada vez mais os direitos humanos de modo mais justo e equilibrado.
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L. Betekeneng

sábado, 13 de outubro de 2012

QUESTÃO POLÍTICA

O Prêmio Nobel da Paz

“Não jogar ouro nem pérola na cara do porco”
Assim, um ditado popular bem antigo, porém sempre atual, no mundo oriental. A mensagem desse ditado é bem simples: o porco como todo porco não entende o que é ouro ou pérola nem o seu valor para a vida, como entende um ser racional, sentimental e vontade, humana e saudavelmente falando. Mas o que é isso tem a ver com a política? Ontem a noite (12/10-2012) assisti a notícia do jornal nacional da rede Globo de televisão, falando sobre o prêmio Nobel de paz concedido para a União Europeia. Para mim foi uma piada política, uma ironia sem tamanha. mas não só isso, foi uma clara demonstração de descrédito da política mundial em relação com o que é VERDADE política a ser preservada e o que é MENTIRA do sujeito político cavalgando a instituição qualquer para a autopromoção, premiando a quem quiser e como quiser. Se essa instituição, que concedeu o prêmio, fosse mais séria não teria feito o que fez. Mesmo que a atitude tenha a outra boa intenção por trás, o ato feito não traz o VERDADEIRO VALOR político da mesma atitude política, pois não corresponde com a realidade. A pergunta minha é essa: que tipo da PAZ que a política européia tem feito realmente para o resto do mundo em nome da PAZ? Qual continente que mais íncita e mais promove a matança humana e continua matando a vida dos inocentes no mundo até hoje? Os soldados de quais continentes que estão matando os inocentes em diversos cantos do mundo espalhando terror na vida das populações, camuflando-se com bandeira da paz, do direito, da justiça e da liberdade?
É bom lembrar que as personagens políticas tiranas e autoritárias que, infelizmente, ainda estão no poder em diversos continentes no mundo atual são, no passado, representantes da mentalidade política ocidental do expansionismo e colonizante.  Assim, o prêmio de Nobel dado a essa instituição, na minha modesta opinião, foi como “jogar ouro e/ou pérola na cara do porco”. Foi uma sutileza ironia política com uma certa  esperança de ver mais para frente se essa instituição consiga tomar consciência de que não há nenhuma necessidade de construir a PAZ, A JUSTIÇA. A LIBERDADE E O DIREITO pela violência das guerras. Nesse ponto de vista, o prêmio de Nobel concedido foi compreensível, mas sem crédito da VERDADE POLÍTICA que o mundo espera. Não pode e nem ninguém tem direito de transformar uma instituição política séria, que deveria ter o papel de se desempenhar sempre para promover e sociabilizar a VERDADE HUMANA de VIDA para o mundo mais humano, mais justo, mais solidário onda reina a Paz verdadeira, a JUSTIÇA solidária, o DIREITO sagrado humanizado e humano divinizado de todos para todos, em palco de palhaço para apresentar piada política apenas para provocar gargalhada silenciosa feito tampa da vergonha moral.
(L. Betekeneng)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

LÍDER E LIDERANÇA

“Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos” (Mc 9,35)!
Para você, os que estão governando no momento são realmente verdadeiros servidores ou simples chefes e gerentes camuflados de líder? Qual é a diferença entre chefe ou gerente e líder? Qual deveria ser a atitude de um verdadeiro líder, na opinião de Jesus de Nazaré?
O líder não é o mesmo que chefe ou gerente. O líder é aquele que demonstra a atitude de humildade feito o verdadeiro servo. O líder transformador deve ter capacidade de “EAT” (Exemplificador, Animador e Torcedor ou sustentador). O verdadeiro líder inspira a confiança e possibilita a “creatividade” na fidelidade dos membros. O contrário, imprime o medo e corrói talentos favorecendo a infidelidade. O líder maduro não teme pela novidade, pois poupa sua confiança na providência de Deus. Ele não determina e manda de cima, mas sempre dialoga com todos. A palavra final não é dele, mas o resultado do diálogo com todos, e o líder apenas certifica a voz da equipe. O líder convida e estimula a equipe e não comanda. Ele não é o mais importante do grupo, é um do grupo. Seu ofício é ser co-ordenador. Todos têm o seu papel indispensável na equipe. Qual tipo de líder você é? Como você está liderando você mesmo em relação com os outros e os demais? (L. Betekeneng)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

CARIDADE CRISTÃ: COMPARTILHAR O BEM É COMPARTILHAR SOBREVIDA

(Jo 6,1-15)
O relato da multiplicação dos pães é uma releitura do Primeiro Testamento, do segundo livro dos Reis (2Rs 4,42-44). Esse relato do compartilhamento dos pães com os próximos foi uma literatura comum das primeiras comunidades cristãs como forma de recordar e resgatar o modo de vida sociocultural dos antepassados. Ao fazer essa releitura, o autor sacro quer dizer para os seus leitores que Jesus de Nazaré é o novo-Eliseu.
Ou seja, o profeta Eliseu foi o modelo básico (protótipo) do líder Jesus no tempo de renovação; assim, o ato de Jesus revela a continuidade da ação de caridade para resolver a necessidade imediata (dar de comer aos famintos). É bom lembrar que, conforme a tradição judaica, todo o líder de Israel tem sua responsabilidade de dar a atenção especial para com os necessitados: os órfãos e viúvas, os famintos e sedentos, os abandonados e estrangeiros. Esse ato é visto como a prática de justiça. Tanto é importante essa tradição que faz com que todos os quatros evangelistas relataram essa prática (Mc 6,32-44; Mt 14,13-21; Lc 9,10-17).
Esse relato de milagre da multiplicação dos pães pode ser comparado com o milagre de alimentação na Primeira Aliança de modo especial o milagre de maná no deserto quando o povo passava fome (cf. Nm 11,22; Ex 16,16ss). Os pães de Jesus são os pães escatológicos que servem, não só para cinco mil pessoas, mas para toda a humanidade. A prática de compartilhamento dos alimentos é, portanto, a vivência da justiça como garantia da paz e harmonia no mundo. O número 12 é símbolo, primeiramente, das doze tribos de Israel e, segundo representa a totalidade da humanidade, símbolo da perfeição, da plenitude. Assim, toda a humanidade é chamada à responsabilidade, à partilha de bens da vida.
Seguir Jesus não é o mérito, mas uma responsabilidade: ser, viver e agir como Cris foi, viveu e fez. Os bens do mundo são dádiva de Deus para toda a humanidade, portanto deve ser compartilhada para com todos e não para ser acumulado pelos poucos. A fome do mundo é denúncia do egoísmo, da ganância, do espírito consumista desenfreado.
Como está sendo a vida cristã? E os líderes cristãos, estão seguindo o ensinamento de Jesus na prática de compartilhar os bens? Dizemos que falta alimentos no mundo; o que falta é a partilha. Esse é o desafio para toda a humanidade em geral e os cristãos em especial.
A caridade cristã não só para resolver a necessidade imediata (assistencial e promocional), mas também do longo prazo, a caridade libertadora, isto é, fazer o próximo o protagonista de sua salvação, uma caridade que desenvolve a capacidade do próximo como sujeito ativo que produz a vida, o digno cooperador de Deus na contínua construção do mundo, transformando-o um pedaço do céu para todos onde reina a paz duradoura, a alegria no Espírito Santo e a justiça verdadeira para com todos. A caridade assistencial e promocional só criar o sujeito passivo, improdutivo, cria a mentalidade viciosa e mendicante.
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Lukas Betekeneng

domingo, 24 de junho de 2012

VOCAÇÃO E MISSÃO:

Ser luz do mundo para iluminar as nações
(Is 49,1-6; At 13,22-26;Lc 1,57-66.80)

Cinco pontos nos chamam a atenção: a) o começo da vocação; b) a coerência entre o ser fontal e o agir; c) “dar” o nome; d) reconhecimento de si; e) papel da mulher no plano de Deus.
A. O começo do chamamento de Deus. O que é vocação? Quando começa e onde acontece a vocação humana e cristã? Quando Jesus diz: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12), ele não está falando nada de novo, pelo contrário, confirmando a consciência mística e espiritual da vida de fé do seu povo como “luz das nações” (Is 49,6). O povo de Israel, assim, segundo sua consciência de fé, é chamado para “ser” luz de Deus, cuja “missão”, para iluminar a vida de todas as nações em prol da plenificação do plano salvífico de Deus. Nesta perspectiva de missão, dizemos que a vocação de “ser” luz para todos os demais não é o mérito, mas, antes de tudo, é uma responsabilidade. Mas, o que é, afinal, a vocação e para que? Deus quer que toda a humanidade seja salva, mas necessita de nossa cooperação.
A palavra “vocação” é, etimologicamente, de origem latina “vocare” que quer dizer, ação de chamar (ou, o ato de chamar). O profeta Jeremias a define como “sedução irresistível” de Deus no coração do homem: “Tu me seduziste, Iahweh, e eu me deixei seduzir” (cf. Jr 20,7). Vocação é, portanto, um chamamento de dentro para ser a partir de dentro (na entranha, no coração, na consciência): para ser alguém, isto é, ser gente apaixonado e apaixonante pelas coisas de Deus, seduzido e atraído por Deus e vive fazendo transparecer a face de Deus união, comunhão, relação e comunicação através do jeito de ser, de viver e agir efetivo e afetivo.
A vocação não acontece de dia para a noite, ela já começa desde o útero materno (cf. Is 49,1). Ou seja, desde que Deus nos criou à sua própria imagem e semelhança (cf. Gn 1,26-28) no paraíso uterino, depois insuflou o seu Espírito de vida em nós, naquele momento foi o momento da vocação. Deus não chama alguém por chamar. Ele chama para ser gente e enviá-lo à missão para realizar a sua obra salvadora.  (cf. Dt 5,2; Ex 3,7-10; 34,6; Eclo 2,11; Sl 116,3; Lc 4,18-19).
B. A coerência entre o ser fontal e o agir. Quem é o homem? De onde ele vem? Pelo relato do livro de Gênese da criação do ser humano à imagem e semelhança do Criador (cf. Gn 1,26-28), podemos afirmar que o homem é o Espírito de Deus em corpo humano operando no mundo. Ou, como diz o Apóstolo Paulo: o ser humano é, em Cristo Jesus, a “imagem visível de Deus invisível” (Cl 1,15). Dizer de outra forma: o Deus Criador é a origem essencial e o fim existencial do ser humano – e de toda a criação.
Tendo Deus como origem de sua essência, toda a sua ação existencial revelaria a qualidade originária – e originado – do seu “ser” fontal, pois como a árvore é reconhecida pelo fruto que produz, assim o homem é reconhecido pela sua ação (cf. Mt 7,15-19; Lc 6,43-45). Quem é de Deus, guarda o seu mandamento e pratica as boas obras que favorecem a vida, pois Deus não da morte, do desamor, da injustiça e da opressão, mas é o Deus da vida, do Amor, da Justiça, da Libertação e Salvação. O homem-Deus vive e age conforme a vontade de Deus (cf. At 13,22). O homem-Deus não pode viver fazendo outra coisa senão praticar bem segundo a vontade de Deus: exercitar o direito, praticar a justiça, promover a paz pela paz, conservar a liberdade e respeitar os diferentes, incultural a responsabilidade.
C. Dar o nome. O ato de “dar” o nome a algo ou alguém é, na compreensão cultural semítica dos judeus. Significa ter o “domínio” (principalmente no cuidado e na responsabilidade) sobre algo ou alguém. Desse ato de “dar” o nome sempre foi o homem, em uma cultura patriarcal. O que nos chama a atenção neste texto de Lucas, foi a mulher quem deu o nome ao filho, e o homem confirmou a palavra da mulher registrando-o legalmente e divulgando a pública (cf. Lc 1,60.63). Neste aspecto Lucas quer provocar uma mudança de comportamento social, uma mudança de paradigma na sociedade política social e religiosa, nova maneira de conceber a cultura, é uma pro-vocação para repensar a atitude, a mentalidade excludente e opressora.
A mudez de Zacarias é uma realidade simbólica adotada por Lucas para registrar a Boa Nova de Deus da justiça para resgatar o direito e a dignidade da Mulher. Assim, o homem e a mulher estão lado a lado, de fato e de direito como cooperadores no plano de Deus da salvação do mundo. Segundo a concepção religiosa da comunidade de Luca, diante de Deus não existe ninguém mais do que ninguém, todos são iguais, todos são irmãos e irmãs: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne”! (Gn 2,23).
D. Reconhecimento de si: um ato de humildade e maturidade. O que mais falta hoje em dia da nossa vida é a atitude de humildade e maturidade. Essa é a marca própria do evangelista Lucas. O espírito de humildade abre o caminho o convívio integral e respeitoso com todos e com tudo, é o sinal de maturidade e responsabilidade, é a via de acesso do conhecimento do outro como outro, aceitação de si como diferente, de Deus como Deus e do cosmos. O efeito da carência do espírito de humildade na vida de uma pessoa é a mentalidade de arrogância, a discriminação, o radicalismo, a infantilidade, a ignorância, o egoísmo e todos os tipos de injustiça e práticas de violência, simbólica e real.
E. Papel da mulher no plano de Deus. De todos os evangelistas, somente Lucas que fala mais com exclusividade sobre o papel da mulher, registrando sua atitude decisiva no plano de Deus da salvação. Dessa forma o Autor sacro quer passar para os seus ouvintes a compreensão do amor inclusivo de Deus, a idéia de uma nova sociedade a partir de Cristo Jesus: o homem e mulher como digno protagonista principal, de fato e de direito, tanto dentro da vida familiar, social, econômica, quanto na vida política, cultural e religiosa.
A discriminação da mulher e todo o tipo de injustiça e agressividade contra ela é sinal da violência contra o feminino de Deus na humanidade (cf. Mt 25,40). É o registro de uma fé insana e, portanto, doentia que não vale para ser vivida. E esse é o desafio monumental para o cristianismo. Se Jesus incluiu a mulher na sua vida e missão, não tem ninguém pode nem deve excluí-la de nenhum espaço de vida, nem na família, nem na política e muito menos na vida da Igreja. Não há razão, nem teológica nem bíblica para isso. A Boa nova de Deus trazida, vivida e testemunhada por Jesus de Nazaré é criar uma nova forma de convivência mais humana e mais crística, isto é, inclusiva, justa ética, moral, política e religiosamente.  
Conclusão
F. Liderança futura: a fé na política e a política da fé. O homem é um ser todo complexo: físico, psíquico, religioso, cultural, político, linguagem, técnico, sexuado, mundano, celestial, divertimento, etc.. Toda a ação humana, em qualquer campo de vida, sempre carregada de toda essa dimensão. Assim não tem como excluir a ação política da vida de fé e vice versa. A fé á a dimensão política do humano em contemplação; e o exercício político é o conteúdo de fé em ação, em socialização ou em inculturação.
Um líder do terceiro milênio deve fazer valer de modo equilibrado a dimensão política da vida de fé e a dimensão religiosa do exercício político. A ação política como fortalecimento da fé e o papel da fé ilumina e corrige os desvios (as manipulações) no fazer política. Um líder – em qualquer campo de ação – quando tem o equilíbrio, age sempre pensando na geração futura. O líder assim é “incapaz” de praticar qualquer a maldade contra o seu próximo (cf. Sl 15).
O líder com visão para o futuro é um líder responsável que sempre pensa no bem dos outros, sempre considera o outro como mais importante, reconhece seus limites: ”Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas, vede, depois de mim vem aquele do qual nem mereço desamarrar as sandálias” (At 13,25). Jesus representa nova geração, novo tempo, novo modo de ser, de viver e agir, nova visão sobre mundo, nova experiência de do amor de Deus. Essa atitude de humildade de João faz com Jesus retribui de forma exemplar quando diz: “Entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior do que João, o Batista” (Mt 11,11).
Como está indo a nossa liderança: na família, na sociedade em geral, na política, na vida religiosa e na Igreja? O encontro dos líderes mundiais do Rio+20 foi mais do “papulorum” e “papelorum” progresso do que “populorum progresso”. Foi uma perda de tempo. O resultado demonstra a incapacidade coletiva no comprometimento concreto de responsabilidade com a futura geração. A nova geração precisa de atitudes concretas e não de teorias, precisa de exemplificação e não de explicações ideológicas.
___________&&&___________ Lukas Betekeneng.

domingo, 17 de junho de 2012

REINO DE DEUS: UMA VIA DE MÃO DUPLA

(Mc 4,26-34)
É bom lembrar, desde já, que todos os textos bíblicos devem ser lidos, primeiramente, na ótica cultural judaica e semítica e não na ótica greco-romana, antes de fazer qualquer outra interpretação intelectualizada e adaptação cultural, pois se não fosse assim as mensagens originais do texto serão distorcidas e entendidas erroneamente. Depois desse trabalho de compreensão na fonte original que o texto pode ser trazido ao nosso contexto atual (à nossa cultura) em busca da mensagem de Deus para a nossa vida no aqui e agora. Na hermenêutica (ao fazer interpretação) do texto deve prestar muito atenção para não manipular a Palavra de Deus em benefício de qualquer estrutura do poder da autoridade, e, sim, somente para alimentar a vida humana e espiritual de toda a humanidade.
O “reino” de Deus é, antes de tudo, um termo todo político adotado pelos evangelistas como forma de exaltar o domínio do amor de Deus (visão teocêntrica) no mundo criado. É uma maneira de conscientizar os leitores sobre a ação salvífica de Deus na vida do planeta (cf. Sl 16,11; 18,30). Assim, o reino do homem e o “reino” de Deus são colocados lado a lado, com suas características e seus representantes, feito dois caminhos (ou, duas portas) de vida para ser examinado e escolhido (cf. Pr 14,12; Mt 7,13-14). O ser humano tem de usar suas capacidades – dadas por Deus desde o princípio – para tomar suas decisões todos os dias: qual caminho deve ser escolhido e trilhado, em quem deve acreditar, o que fazer e como fazer para poder sobreviver, etc..
O reino de Deus, na concepção da comunidade marqueana, é uma via de mão dupla: ação de Deus e re-ação dos homens. A chave dessa afirmação consiste na afirmação típica de o semeador espalhar suas sementes na terra (no coração do homem) e depois vai dormir e levantar sem saber o desenvolvimento e amadurecimento do plantio (vv.26-27). O termo “não saber” aqui significa a responsabilidade de cuidado do homem. Esse ato de cuidado que será avaliado nos fins dos tempos de vida existencial (v. 29). Ao ser criado à imagem e semelhança do Criador, o ser humano recebe a confiança de Deus do cuidado (v. 28) como cooperador na contínua criação de um mundo cada vez mais humano e mais irmão.
Mas, que tipo do reino de Deus que os evangelistas pretendem passar para os seus ouvintes? É bom saber que a credibilidade da instituição petarnalista está em baixa. A mentalidade patrilinear da convivência precisa ser renovada. O romantismo afetivo no relacionamento masculino-feminino está corrompido. Neste contexto, Jesus exige uma transformação interno, exige uma mudança de mentalidade, renovação de comportamento, exige, sobretudo, a conversão de vida, um voltar à fonte: a paternidade divina e a fraternidade humana. Esse é a concepção do reino da Deus proposto por Jesus de Nazaré, anunciado e testemunhado, com suor e sangue, pelos discípulos e apóstolos (cf. Mc 3,31-35; Mt 23,1-12; Lc 22,32; Jo 15,13-15). Assim, o reino de Deus não é outra coisa senão a justiça social, a paz verdadeira e a alegria profunda, derradeira e duradoura no Espírito Santo (cf. Rm 14,8). O reino de Deus não é posse nem privilégio e nem poder, mas é a condição (o estado) de vida no interior (coração) do homem e que se aflora e frutifique no convívio relacional da humanidade entre si (cf. Lc 17,21), com Deus e com cosmos.
Esse sinal do reino de Deus é muito pequeno feito grão de mostarda (v. 31), mas quando vivido de modo pleno, ele se tornará maior feita a árvore estrondosa capas de atrair, reunir e abrigar todos os viventes do quatro cantos do mundo em baixo de suas sombras (v. 32). Assim é o desejo de Deus, que os homens e mulheres consigam ser, viver e fazer do mundo um lar de irmãos tendo Deus o Pai-maternal e Mãe-paternal e Filial para toda a criação. E essa é o desafio de toda a humanidade, desafio de toda a vida cristã. Esse é o projeto de Deus para a nossa vida, hoje, nesse terceiro milênio.
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Lukas Betekeneng

sábado, 2 de junho de 2012

DESEJO JESUÂNICO DE FRATERNIDADE UNIVERSAL

(Mt 28,16-20)

Jesus de Nazaré não foi nem era cristão! Ele foi batizado com o batismo de João no rio Jordão, isso significa que, ele aderiu-se, até em certo ponto, ao movimento do Batista, mas não prosseguiu o modo de ser, viver e agir do Batista. Tanto é verdade que ele não repetiu (a forma) do batismo de João - de molhar a cabeça (até os pés?), mas modificou-a e criou sua própria forma diferente de batizar – de lavar apenas os pés[1] dos seus discípulos (cf. Jo 13,1-16) e pediu para que eles façam o mesmo uns para com os outros. Jesus também não tinha intenção de mudar o fundamento espiritual e religioso do seu povo. Ele queria, todavia, a renovação da convicção espiritual e religiosa, tanto quanto, sociopolítica e cultural, ele queria a transformação da mentalidade, ele queria, sobretudo, voltar à origem para reembeber na fonte salutar a água pura da vida (cf. 18,3; Jo 3,3).
Jesus já morreu, sua presença física já não existe mais (simbolizado pela imagem cultural oriental e semítica do túmulo vazio) no meio dos seus seguidores, mas seu espírito continua vivo, agindo nos seus corações, suas palavras e seus exemplos continuam sendo a principal força norteadora para a vida e ações dos discípulos e seguidores. Jesus de Mateus – nesse texto – não pediu o reconhecimento dos discípulos, mas exigiu a escuta de suas palavras e continua divulgando a Boa Nova de Deus para todos os povos (v.19). Assim, se deve entender o sentido teológico-cultual da ressurreição: o corpo foi morto e agora se descansou em paz, mas o espírito está vivo agitando a alma de todos aqueles que o acolheram e acreditaram na sua proposta: a transformação de vida a partir de dentro. Os atos e ditos de Jesus (suas palavras e práticas) contagiaram o meu espírito, reacenderam a chama do meu ânimo, do meu entusiasmo e da minha esperança para continuar lutando pela mudança, pela renovação do espírito de vida mais humana, mais solidária, mais libertadora. Ou, como a expressão lapidar de São Paulo de tarso: “Já não sou eu que vivo, mas o Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
Observa que a atenção dos discípulos a partir de agora não mais direcionada para o túmulo vazio, mas voltou à Galileia, isso significa voltar à origem onde tudo começou. É esse ponto que o autor da comunidade-Igreja mateana construiu o centro de seu interesse na seção pascal, com o acento na escuta da Palavra-Vida do Guru. Jesus salvou seu IDEAL DE VIDA[2] com a entrega de sua própria vida pela vida de toda a humanidade: “comunhão, comunicação e relação fraterna (A PATERNIDADE DIVINA E FRATERNIDADE HUMANA) de todos os povos (unidade na pluralidade) onde se estabelece a relação pericorética e hologramática, recursiva e dialógica” (cf. Gn 1,26-27; 2,7.21; Jo 10,5.30; 15,4; 10,7-8; Mt 15,21-28; Is 55,8).  É sob a luz e a força desse ideal de vida que os discípulos e seguidores devem anunciar a todos os povos. Esse é a Boa nova que deve ser testemunhada, não somente com as palavras, mas principalmente com a prática de vida. Somente assim que a humanidade capaz de sair de uma mentalidade política, cultural, espiritual e religiosa opressora, discriminatória, manipuladora, escravatória e paralisante. A fraternidade de toda a humanidade aqui na terra é, portanto, a antecipação efetiva e afetiva da comunhão plena e eterna quando Deus Trindade se torna tudo em todos (cf. 1Cr 15,28).
Essa é a missão – e ao mesmo tempo o desafio – da Igreja de encarnar a compreensão da ressurreição na história de vida, neste mundo. A Igreja não estar sozinha nessa missão, mas será acompanhada por Jesus (pelo seu espírito de relutância e guiada pela força de sua Palavra e seu Exemplo) todos os dias até o fim do mundo (v.20).
_______&&&_______ Lukas Betekeneng


[1] Há diversos sentidos simbólicos do ato de lavar os pés (e cabeça) no mundo oriental em geral e semitismo especialmente, entre eles, o sinal de equilíbrio, de integridade, de humildade, de reconhecimento da origem existencial, de igualdade e relatividade, etc.
[2] Esse ideal de Jesus foi e será sempre a maior utopia do seu anúncio evangélico de Deus Criador: “A paternidade de Deus e a fraternidade humana” (cf. Mt 23,8-10; Jo 15,13.15)..

domingo, 27 de maio de 2012

PENTECOSTES: A RATIFICAÇÃO DO “DESEJO” DE DEUS PARA COM A HUMANIDADE RENOVADA

(Jo 7,37-39)
Pentecostes é uma celebração, simbólica e historicamente, ligada à festa judaica de colheita (festa agrícola dos Ázimos – cf. Êx 23,14-117; 18-23), que comemora a entrega do Decálogo (Dez Palavras da Lei) no monte Sinai, cinquenta dias após o Êxodo do Egito rumo a terra de Canaã. É uma festa da passagem da vida de escravidão à libertação, uma atitude de Deus de resgatar (Go’El) sua própria imagem e semelhança profanadas pelos homens de mentalidade insalubre, insensíveis e ignorantes. Baseada nessa festa que os cristãos (cf. At 2,1-11) celebram o Pentecostes (a decida do Espírito Santo), cinquenta dias depois da Ressurreição (ou dez dias após a ascensão). É bom lembrar que o Natal, a Páscoa e Pentecostes são o tripé da vida de fé cristã.
O que significa o Pentecostes para a nossa vida hoje? Segundo a fé dos discípulos e seguidores, com e em Jesus de Nazaré que se inicia o recomeço da nova humanidade; para eles o novo céu, a nova terra e a nova humanidade, todos são recriados em Jesus, com Jesus e através de Jesus, o Cristo de Deus operando no nosso meio. A morte de Jesus poria o fim de todo o tipo de violência contra vida, de todas as formas de colonização, de discriminação, de guerras entre nações, religiões e etnias. O mundo dos sonhos (a harmonia, a justiça, a liberdade e solidariedade salvífica, etc.) teria começado na vida da humanidade, a paz teria vingado suas raízes no coração dos homens e mulheres em todas as gerações e o planeta Terra tornaria, em fim, um lar de irmão onde todos convivem e correlacionam harmoniosamente.
Dizemos de outra maneira, com o assassinato de Jesus de Nazaré, o seu espírito de fraternidade e solidariedade que se imprime na luta incansável pela liberdade, pelo direito e dignidade, pela justiça e solidariedade e pela convivência respeitosa teria contagiado o comportamento de todos os homens e mulheres, transformando, assim, em humanidade nova e renovada, isto é, mais humana, mais responsável e cuidadosa, portanto, mais sensível, solidária e salvífica. O testemunho dos discípulos e seguidores de Jesus sobre o desejo afetuoso de Deus teria força suficiente capaz de conscientizar toda a humanidade, de sensibilizar e reeducar a mentalidade, a sensibilidade e a vontade das gerações humanas de todos os tempos e lugares. Mas, se olharmos para a realidade em que estamos vivendo neste pleno século XXI, parece que a morte de Jesus e o testemunho de seus discípulos e seguidores sobre o sonho do amor fraterno de Deus que Ele tinha anunciado e vivido a ponto de se entregar sua própria vida por nós, tudo isso foi em vão.
Como exemplo disso, em todo o canto do mundo ainda flagra-se as escaladas guerras de grandes proporções, promovidas pelos países ocidentais (Estados Unidos das Américas e diversos países da Europa), baseada nas falsas teses de perigo de armas químicas e biológicas. Na realidade as guerras foram motivadas pelos comportamentos desenfreados e doentios de colonialismo e imperialismo de certos líderes políticos que, infelizmente, ainda são dominados pelo espírito de selvageria da primitividade e monstruosidade animálica. Não resta dúvida de que o que está por trás de todas as guerras é o interesse econômico (a prática de manipulação e corrupção “legalizada” politicamente, caprichada através da criação dos sistemas injustos e aplicados nas relações comerciais entre nações).
A prática de guerras como forma de fazer política no mundo revela, sem dúvida, a salubridade do estado psicológico do ser humano, da qualidade da intelectualidade, revela, sobretudo, a fragilidade mental e moral cultural, social, psicoemocional e espiritual dos próprios homens e mulheres, equipados com três principais forças norteadoras de ações (racionalidade, sensibilidade e vontade). Todas as formas de violência contra o próximo são a demonstração do espírito da animalidade de dominação (práticas de brutalidade contra pessoas e natureza, de desrespeito, de intolerância, de falta de sensibilidade, falta de educação mental psicoemocional e espiritualmente mais humana saudável) próprio no mundo dos animais que vivem movidos e guiados pelo instinto, como forma de impor a própria vontade, em vez de promover o verdadeiro diálogo, solidariedade e mútuo respeito e entre as diferenças.
Não tem como entender o ser humano que possui a força da razão, a energia corânica da afetividade e a vontade de ações bem formadas e treinadas, mas que vive como e faz se tivesse guiado pelo instinto animálico de sobrevivência que pratica as violências como forma única para garantir sua existência no mundo. As guerras, as violências: físicas, psicológicas e morais cultural, espiritual e religiosa, o espírito de consumo desenfreado que leva as pessoas a praticar a corrupção, a injustiça social, a negação dos direitos, a privação da liberdade, o desrespeito, a intolerância, as discriminações são as provas de que o ser humano ainda é impotente, inabitado e incapaz de se tornar humano saudável tanto para consigo e com o próximo quanto para com cosmos e com Deus que o criou à sua imagem e semelhança. A humanidade do terceiro milênio, apesar de alto índice do desenvolvimento de sua capacidade científica e tecnológica, ainda continua dominada pela “mentalidade babélica da primitividade” (cf. Gn 11,1-9).
Não dá para entender o mesmo ser humano que, ao mesmo tempo, prega a paz e promove a guerra; que fala de justiça e pratica a corrupção; que sugere o respeito, mas nega e priva o direito e a liberdade dos outros; que pede a graça do amor protetor e paz de Deus dos homens e mulheres da humanidade, mas por outro lado, viva espalhando terror e desgraças contra homens e mulheres-imagens e semelhança desse mesmo Deus; que fala de amor e pratica o desamor; que deseja a felicidade e união comunial e, ao mesmo tempo, provoca a desagregação e pratica o egoismo. A força da religião, em vez de libertar e humanizar o ser humano o escraviza e desumaniza, utilizada com instrumento para destruir a vida de Deus no mundo, principalmente a Vida que está presente nos homens e mulheres da humanidade. Esses são os desafios concretos para os homens e mulheres de fé em geral e dos cristãos em especial.
O desejo de Deus da fraternidade e da paz, da justiça e solidariedade na vida dos homens e mulheres só é possível se a própria humanidade retoma a consciência de si e aceita sua natureza criatural como imagem e semelhança do Criador-Deus, como co-labor-a-dor do Divino, como Espírito celestial em corpo humano no mundo.
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Lukas Betekeneng

domingo, 20 de maio de 2012

ENVIO MISSIONÁRIO

(Mc 16,15-20)

O discurso de envio – missionário (vv15-16) serve-se de expressão nas primeiras comunidades cristãs desde o primeiro tempo de sua formação. O autor (anônimo) que faz a costura final do Evangelho de Marcos anuncia a vitória do Bem sobre o mal (vv.17-18). Com a morte de Jesus, os povos tomarão consciência e irão ter nova linguagem, o mundo novo e nova humanidade serão criados a partir do testemunho missionários dos discípulos e seguidores, pelo mundo afora. Essa nova forma de ser, de conviver e correlacionar para com todas as criaturas é a impressão (a marca da identidade) da experiência de fé e amor fraterno.
O ponto mais importante nesse texto está no versículo 19: “Jesus foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus”. Duas palavras simbólicas apontam a profundidade da mensagem teológica que o autor quer passar para os seus leitores na sua atividade catequética: tudo o que o ser humano rebaixar para a terra, Deus eleva para o céu; e tudo aquilo que o ser humano despreza e desvaloriza, Deus recupera, resgata e valoriza. Mais ainda quando se trata de “sua própria imagem e semelhança” (cf. Gn 1,26). Assim, “na mão de Deus nada se perde, tudo se afirma, tudo cresce e tudo se transforma” (cf. 1Cr 29,12).
A partir dessa consciência teológica que os discípulos e seguidores vão anunciar a Boa Nova pelo mundo, não só com palavras, mas principalmente com as práticas de vida. O ser humano precisa renascer, precisa dar à luz a si mesmo no Espírito (cf. Jo 3,3), precisa se transformar em homem novo crístico. Os cristãos, principalmente, precisam de conversão, de se tornar homens e mulheres mais saudáveis, mais maduros, mais equilibrados e mais humanos, portanto mais, crísticos, isto é, mais salvíficos. Os cristãos devem, em primeiro lugar, domar sua própria animalidade antes mesmo de querer mudar o mundo. Com suas práticas de vida, em todos os níveis, mostra que os cristãos ainda estão bem longe do seguimento de Jesus Cristo, a Boa Nova de Deus anunciada por Jesus ainda não atingiu o coração dos batizados e batizadas, muitos cristãos ainda vivem a mentalidade primitiva. O exemplo disso são as guerras e todo o tipo de matança contra vida que se flagram pelo mundo afora. O mundo só será mudado na medida em que o ser humano muda a sua maneira de ser, viver e agir.
É pura hipocrisia quando da mesma boca sai a bênção e maldição; é pura hipocrisia o mesmo homem que, ao mesmo tempo, fala da paz, da justiça e do direito e pratica a violência, a injustiça e a discriminação e corrupção.
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Lukas Betekeneng

domingo, 13 de maio de 2012

MÃE – UM PENSAMENTO PARA O DIA DAS MÃES

MÃE é uma pequena palavra de quatro letras, mas carregada de significado infinito, pois expressa a doação de vida, a dedicação total, a força de coragem, a luz da confiança e, sobretudo, o amor incondicional... Com ela formam o sistema tricêntrico da geração de vida: útero celestial (Espírito Santo), útero hominal (Mulher-Mãe) e útero telúrico (Gaia ou, Mãe-Terra).
A mãe é a estrada da existência, a ponte que liga o céu e a terra da vida, é o calor que aquece o ânimo, a chama que reacende o entusiasmo, a base que sustenta a esperança...
Ser mãe é ser o desejo do Criador presente na terra que sonha com a vida e as vidas, é ser a entranha da Divindade operando no mundo que gera e forma o novo ser, é ser a mão de Deus que cria e recria, que vela e conduz pelo caminho do bem, é ser braços do Paraíso celestial que acolhe, carrega e protege, é ser o coração do Céu que reúne, reconcilia e abriga. Ser mãe é uma atitude virtuosa de livre e espontânea doação da própria vida pela vida dos demais por amor, no amor e para o amor sem limites...
Ser mãe é um papel de responsabilidade geracional – e cuidado missionário – exclusivamente feminina, altamente divina, profundamente humana e totalmente sagrada, por isso é insubstituível e inviolável...
Mãe é a beleza das flores, a doçura do mel, o brilho das estrelas, é o amor sincero sem exagero. É a terra fecunda que germina a nova vida, é o primeiro berço do beabá da humanidade, é o shekinah do afeto propulsor...
Só a mãe é capaz de escutar o silêncio, de vislumbrar no escuro, de decifrar o indizível. Só a mãe é capaz de revelar ao mundo da humanidade a face misericordiosa de Deus Pai maternal e Mãe paternal e Filial. Ser mãe é encarnar o útero da divindade Criadora na Humanidade criada.
________&&&________ Por: Lukas Betekeneng

SER MÃE: UMA DOAÇÃO DE VIDA PELA VIDA

“Ninguém tem maior amor do que aquela/e que doa a própria vida pela vida dos demais” (cf. Jo 15,13)
Hoje, a humanidade inteira relembra-se de sua origem existencial em forma de reflexão e celebração em homenagem das mulheres-mães. Dia das mães não é somente um dia. Todos os dias é o dia das mães, pois ela foi convidada para assumir esse papel em todos os dias de nossas vidas.
Era uma vez um ancião perguntou a um velho artista: por que meu velho dedica o maior tempo de sua vida esculpindo a imagem da mulher-mãe? O velho escultor lhe respondeu, explicando: porque só ela, e somente ela e não há outra, é capaz de assumir esse papel com maior empenho e responsabilidade. Somente ela é capaz de carregar espaço de vida para todos os viventes junto ao seu próprio corpo; só ela é capaz de zelar o ato de cuidado com sua terna afeição e total dedicação. Só ela tem a palavra lenitiva para aliviar o peso da alma, só ela tem a mão medicinal para sarar a ferida do corpo.
Ela é a única que guarda no seu desejo o sonho de carregar a vida nova, só ela é a única capaz de abrigar com cuidado exemplar a presença de novas vidas. Só ela é a única habilitada para transformar os seus braços em berçário para os seus bebês; só ela é a única capaz de tirar do seu peito o alimento para nutrir os seus filhos. Só ela é a única capaz de carregar no seu coração a eterna saudade da ver o crescimento e amadurecimento dos frutos de seus amores. Assim a maneira única e própria da mãe carrega a vida: no sonho maternal, no útero gerador, no colo junto ao peito e, por fim, na implacável saudade corânica da mulher-mãe. Ela é a síntese feminina do Deus Pai-maternal, Mãe-paternal e filial no mundo.
Ser mãe não é obrigação e nem mérito. É uma livre e espontânea doação da própria vida pela vida dos demais, por amor, com amor e para o amor. Só a mulher-mãe sabe e capaz de derramar as lágrimas do encanto nos dias alegres diante dos filhos e, mais capaz ainda de jorrar as lágrimas de pranto inconsolável nos momentos de dores, de desespero, de desapontamento e solidão de vida e das vidas. Ela também capaz de conversar com Deus em orações para pedir a bênção para seus filhos, proteção para sua família, sucesso e prosperidade para familiares.
Ser mãe é o próprio sonho de toda a mulher da humanidade, é uma atitude virtuosa e louvável do ser feminino que se prontifica, e sem receio, para assumir, com responsabilidade e dedicação, a missão divina-humana de ser espaço gerador para a presença de novas vidas no mundo. por isso ela é a presença palpável do Espírito Santo dinamizador e multiplicador do interrelacionamento dos homens entre se, com cosmos e com o Criador. Só ela quem goza esse privilégio divino de ser geradora e cuidadora de vida.
Ser mãe é ser desejo do Criador que sonha, ser entranha da Divindade que gera e forma, ser mão de Deus que cria, vela e conduz pelo caminho do bem, ser Braços do Paraíso que carrega e protege, ser coração do Céu que recolhe, reconcilia e abriga...
Enquanto haja mãe na terra assim, o nome de Deus será glorificado por todo e sempre, e homens e mulheres da humanidade serão abecados de geração em geração.
Parabéns para vocês todas as mulheres-mães. Que o Deus da misericórdia abençoe todas vocês neste dia tão especial. Que o Espírito velador de Nossa Senhora, Mãe de Misericórdia protege todas vocês todos os dias de suas vidas e trabalhos de mãe.
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Lukas Betekeneng

domingo, 6 de maio de 2012

O PERMANECER RECÍPROCO: A CHAVE SIMBÓLICA QUE REVELA OS TIPOS DE INTERRELACIONAMENTO VERTICAL E HORIZONTAL

(Jo 15,1-8)
Através da alegoria da videira e os ramos (vv. 1-6) percebemos o pano de fundo desse texto que nos revela quem são os adversários da comunidade joanina: os grupos do sincretismo helenista. Na compreensão desse grupo, a videira é apenas uma variante da árvore da vida. Enquanto que a comunidade joanina afirma que Jesus de Nazaré é a única verdadeira videira capaz de nos oferecer a vida na sua plenitude. Ao escrever seu texto, o autor ambienta, na realidade, sua reflexão na leitura do Gênese que fala da bênção de Jacó (cf. Gn 49,10-12). Nesse texto o autor do Gênese descreve o tempo messiânico com as cores da abundância do fruto da vinha: “Ele amarra seu jumento à videira, à videira generosa o filhote de sua jumenta; lava no vinho sua veste e no sangue da uva seu manto”. Baseando-se nesse ambiente que o profeta Oséias faz, mais tarde, a comparação de Israel a uma vinha, não na perspectiva de esperança, mas de juízo: “Israel era uma videira viçosa e dava fruto abundante. Contudo, quanto mais abundante tornava-se o fruto, tanto mais multiplicava suas idolatrias” (Os 10,1-3). Mas em especial de tudo isso é o canto isaniana da vinha (Cf. Is 5,1-7). O tema de esperança, usando a mesma alegoria de vinha, volta a ser ponto principal reflexão, desta vez, com o salmista (cf. Sl 80). E os sinóticos usam essa imagem profética na parábola dos vinhateiros (os líderes religiosos – e políticos) malignos (cf. Mc 12,1-12; Mt 21,33-46; Lc 20,9-19). É, exatamente, nesse rastro do arado da tradição que o autor joanino se move e desenvolve seu pensamento cristológico.
No pensamento alegórico de João, a videira não é, antes de tudo, o povo messiânico, mas o próprio Cristo (o profeta Isaias descreve a figura de Messias como um “rebento” – cf. Is 11,1ss). A identidade de Jesus de João, apresentado neste texto, é do “Eu sou” exódico (cf. Êx 3,14). A declaração do “Eu sou” e “vós sois” traz, de um lado, a noção de continuidade e, de outro, a ruptura. Jesus é o “povo de Deus” (Israel) no seu estado de madureza. E, ao mesmo tempo, o “novo” Israel, isto é, a encarnação de quanto o povo de Deus esperava para a maturação dos tempos (o povo de messiânico, os cristãos). Essa mesma declaração revela igualmente o tipo de relação recursiva e interdependência entre a videira e os ramos que produzem frutuosos: os ramos ligados à videira produzem frutos, que por sua vez, produzem as novas videiras e novos ramos. Também a relação dialógica: situação de uma relação de complementaridade e antagônicas. E por fim, o apelo de Jesus: “Permanecer em mim e eu permanecerei em vós” revela o tipo de relação hologramática e pericorética: os ramos e seus frutos (os discípulos e suas obras) estão na videira (em Cristo) que está neles. A base dessas relações é o amor recíproco.
Uma outra mensagem desse texto é, ao mesmo tempo, de ação de graças e alerta aos discípulos sobre o perigo da perseguição. Por isso diz: “Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vos será dado. Nisso meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos” (vv. 7-8); “Quem não permanecer em mim será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados” (v. 6). Assim, para João, os discípulos só terão a salvação e sucesso na vida e missão se permanecerem unidos em Jesus Cristo junto ao Pai, o Agricultor divino. O permanecer não é outra coisa senão o sinal do amor e fidelidade. Esse amor que se imprime no interrelacionamento entre discípulos entre si e com Deus em Cristo Jesus. É na unidade que nos dá força de viver e agir. E a unidade só terá força e resistente na medida em que cada indivíduo é respeitado, valorizado e preservado.
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Lukas Betekeneng

domingo, 15 de abril de 2012

O ver e o ouvir: vias necessárias do enraizamento, crescimento e amadurecimento da fé

(Jo 20, 19-31)
Ouvimos em muitas homilias nas igrejas um tipo de ideias desatualizadas e interesseiras em relação a este texto. Dizem que Tomé (o Dídimo) é o símbolo do descrédito, ou o modelo de uma fé do tipo pragmático, instrumental, experimental. O autor revela que a fé que nasce e cresce a partir do ver e do ouvir tem, em fim, o mesmo valor e credibilidade. A fé que não tem raiz na realidade experiencial ou ela será “light” ou será fechada (ou intransigente). Assim, como Lucas, João também assinala o mesmo elemento do sentido humano do ver e ouvir como caminho místico e espiritual para o coração. A atitude de Tomé não representa, antes de tudo, a incredulidade. Pelo contrário, é de aviso profético para o cuidado da manipulação da realidade, cuidado do falso anúncio, da idealização e/ou politização dos fatos. O apóstolo Paulo de Tarso chegou a alertar o povo de Gálatas de tomar muito cuidado a esse respeito (cf. Gl 1, 6-10).  
A estrutura desse pequeno texto é tripartida: 1) a iniciativa de Jesus, isto quer dizer que, a aparição de Jesus não é o resultado do desejo ou fruto da busca dos discípulos; 2) o reconhecimento dos discípulos; 3) e, por fim, a inauguração do tempo da missão, ou tempo da Igreja enquanto povo convocado de Deus (tarefa de todos os batizados, homem e mulher). No discurso sobre o itinerário da fé, se percebe dois centros: a) a nova condição da realidade material de Jesus (o cristo da fé); b) a atitude dos discípulos (vv. 19-20).
A intenção do relato sobre a aparição de Jesus após a paixão e morte humilhante na cruz: a morte revela a impotência e inutilidade, o descrédito e a esterilidade do poder e autoridade religiosa e política. Além disso, a aparição é uma forma simbólica de declarar que a morte de Jesus não foi uma vitória do mal, muito pelo contrário, foi uma prova autêntica da vitória do Bem sobre o mal, a maior prova do amor diante do ódio (cf. Jo 15,13). O bem é como uma árvore que, quanto mais você pode mais ela se multiplica, se renova, se regenera. O relato sobre ressurreição e aparição é também para dizer, de modo profeticamente, de que tudo o que o homem discrimina, desvaloriza e joga para o chão, Deus resgata, valoriza e eleva para o alto céu. Essa é a consciência da fé mais elevada, a intuição profundamente mística e religiosa em relação a atitude do Deus-amor para com a obra de sua criação. É essa consciência que reacende a chama da esperança e confiança para a perseverança na luta pelo bem maior. Foi dessa convicção que faz com que Jesus tem declarado de forma parabolicamente quando diz: “Se o grão de trigo que cai no chão e não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muitos frutos” (Jo 12,24). A morte de Jesus provocará a indignação na consciência de todos os homens e mulheres do bem. Foi essa convicção de fé que transforma o medo aprisionador em força e coragem renovadora de continuar lutando pela paz, justiça, liberdade e solidariedade, transformar a tristeza e desespero em alegria de perseverar sem medo rumo a Deus da vida e amor.
A missão dos discípulos, a partir de agora, é de anunciar a vitória do Bem sobre o mal, não através da força vingativa de pagar o mal com o mal, mas testemunha o bem espalhando a paz verdadeira, o perdão e reconciliação para transformar o mundo o verdadeiro lar de convivência solidária como irmãos e irmãs do mesmo pai que está no céu. A missão dos discípulos é de revelar o rosto compassivo, amoroso e misericordioso de Deus anunciado e testemunhado por Jesus de Nazaré através de suas palavras e seus afazeres. De fazer o “desejo” de Jesus da fraternidade global seu programa de vida e ação testemunhal, até os confins da terra, “quando Deus se torna tudo em todos” (1Cr 15,28).
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Lukas Betekeneng

domingo, 8 de abril de 2012

PAPEL DA MULHER NA COMUNIDADE NASCENTE: DESAFIO PERMANENTE PARA A IGREJA

(Mt 28,8-15)
A retórica cristã sobre a liberdade, a justiça e o direito do ser humano é muito impressionante. Mas a prática diária dessa teoria ainda está longe, mas muito distante da realidade, de modo especial quando se trata da prática dentro da vivência eclesial. A Igreja institucional parece mais como espaço de exclusão que inclusão. A base eclesial se torna, com isso, mais ideológica do que teológica. A discriminação de gênero, a negação do direito e a prática de injustiça contra mulher acontecem mais na Igreja do que fora dela.
A história nos mostra que na tradição pré-cristã, as mulheres são tratadas como gênero de segunda classe tanto na vida familiar, na religião quanto na política e na sociedade como um todo. Essa mentalidade excludente e discriminatória, todavia, se evoluindo com o passar do tempo, principalmente no espaço sociocultural onde as pessoas têm mais equilíbrio e maturidade tanto intelectual quanto moral e espiritual. A instrução saudável e equilibrada cria a mentalidade humana mais saudável, mais justa, mais madura humanamente e espiritual e religiosamente mais digna e mais santa.
Deus criou e colocou no mundo o homem e a mulher em condição de igualdade, de fato e de direito. Porém, essa realidade foi manipulada e rompida com as práticas política e religiosa de exclusão e discriminação pelas instituições sociais e familiares tanto quanto políticas e religiosas ao longo da história. A história nos mostra que antes do cristianismo, essa mentalidade primitiva de discriminação e exclusão contra mulher sempre foi desafiada, questionada e condenada, não tanto com as palavras, mas com atitudes e gestos concretos. E a Bíblia é o testemunho ocular disso. Assim, fica claro que qualquer instituição, por melhor que pareça, quanto cria alguma ideologia injusta e pratica a exclusão, a discriminação, a injustiça, a negação do direito e a privação da liberdade contra o ser humano-imagem e semelhança de Deus, essa instituição é maléfica, é insana, doentia, portanto, não é de Deus.
Essa realidade desafia, não só a instituição sociopolítica, mas principalmente religiosa e de modo particular, o desafio monumental para a instituição eclesial atual. A exclusão da mulher na Igreja (a proibição da mulher em relação do ofício ministerial eclesial) não tem mínimo fundamento bíblico nem teológico. É pura ideologia masculina de caráter clerical. Segundo os evangelistas, Jesus já aboliu essa mentalidade primitiva, contudo, essa cultura injusta ainda é mantida vivamente, até hoje, dentro da Igreja. Qual o motivo dessa prática, ninguém sabe explicar direito, e a questão está continuamente aberta para a reflexão e debates.
Quem tem consciência moral cultural e religiosa bem madura e saudável se sente tocado pela mensagem evangélica, principalmente neste tempo da Páscoa. Jesus lutou até à morte, e a morte na cruz para defender a causa dos excluídos, injustiçados e discriminados. E essa morte profética denuncia essa prática e anuncia a mudança radical da mentalidade. É urgente infundir no coração do homem a sanidade mental cultural e moral social e religiosa como garantia da sanidade física da humanidade.
Os evangelistas nos mostram que as mulheres têm seu papel decisivo na vida ministerial de Jesus de Nazaré e na vida das comunidades nascentes. Essa é a verdadeira Boa Nova. Se a Igreja faz a retórica do direito e da justiça sem acompanhado com a prática, ela mesma está dando descrédito da sua própria palavra. E se o anúncio eclesial sem nenhum crédito real, como consequência disso, a sua missão será desvalorizada, principalmente nesse mundo que estamos vivendo, onde as pessoas se tornam cada vez mais instruídas, mais críticas, mais maduras mais sensíveis em relação à justiça social, ao direito e dignidade de cada pessoa, à liberdade responsabilidade individual, etc.
Que o mistério pascal de Cristo transforma os corações dos cristãos de modo particular, e os da humanidade como um todo de pedra em carne. Que a Igreja cristã se sente tocada e chamada para a mudança radical de sua prática de vida, cada dia mais justa, mais digna e mais humana.
Feliz Páscoa a todos e todas!!!
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Lukas Betekeneng

sábado, 7 de abril de 2012

Ressuscitou, não está aqui: o ponto alto da fé cristã

(Gn 1,1 – 2,2; Gn 22, 1-2.9a. 10-13. 15-18; Ex 14,15 – 15,1; Rm 6, 3-11; Mc 16,1-7)

O que significa a ressurreição de Jesus para a história e qual a mensagem para a nossa vida cristã hoje? Para responder essa pergunta, precisamos fazer outra pergunta: quais os sinais da morte (morte potente e morte potencial) que temos vividos, consciente e/ou inconscientemente, no dia a dia de nossas vidas?
Historicamente, a páscoa lembra a saída do povo hebreu do Egito, isto é, a libertação dos judeus das mãos dos faraós e sua passagem pelo deserto, conduzidos pelo Moisés e Aarão, rumo a terra de Canaan. A páscoa dos cristãos associa, portanto, a esse fato histórico, dando-lhe, contudo, um novo sentido – teológico: a libertação do pecado por Jesus Cristo e a passagem (a ressurreição) da morte para a vida. Assim, a fé cristã se constitui nesse tripé: a paixão, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, o Cristo irmão misericordioso.
A Igreja do Brasil lançou um programa de reflexão pascal, neste ano de 2012, ligado à saúde pública. É muito oportuno fazer nossa reflexão ligando a ressurreição de Jesus com o tema da qualidade do serviço de saúde para todos. Como toda a nossa ação é a impressão do nosso ser interior, assim também, a nossa realidade de saúde física está ligada intimamente com a qualidade da nossa saúde mental, moral social e espiritual (cf. Mt 7,17-20; Lc 6,43-45). O nosso mundo continua pior porque nós, o ser humano-imagem e semelhança de Deus, não conseguimos nos tornar, até hoje, como humano saudável. A nossa animalidade parece que nos domina muito mais do que a consciência de nossa humanidade. O mundo parece como um mega zoológico do que o “jardim de Éden”. O ser humano além de destruir a natureza, também se destrói e destruir o próximo. O vilão do sofrimento na humanidade não vem, nem da natureza e muito menos de Deus, é do próprio ser humano. Toda a prática desumana do ser humano é um ato de negação de sua própria qualidade essencial criado por Deus desde o princípio.
Percebe-se que no relato da criação (Gn 1,1 – 2,2), o autor sacro usa quatro vezes o termo “Bom” para a criação das coisas o termo “muito bom” quando Deus cria o ser humano. O autor também fala que Abraão tem superado a tradição primitiva de sacrificar o homem em nome de Deus e de deuses (cf. Gn 22, 1-2.9a. 10-13. 15-18). No livro do Êxodo (cf. Ex 14,15 – 15,1), o autor fala que Deus questionou o pedido (a prece) de Moisés e exigiu-o a agir – em nome d’Ele, para salvar o povo de Israel. Enquanto que para o Apóstolo Paulo, os cristãos são todos batizados na morte e ressurreição de Jesus Cristo, isto é, pelo Batismo nos tornamos o “outro Cristo”. Ou seja, devemos ser, viver e agir como Cristo.
Nós, os cristãos, como seguidor de Jesus Cristo, estamos seguindo-o de perto com corpo e alma ou só da boca para fora? Pela realidade que estamos vivendo podemos dizer estamos seguindo Jesus ainda só com a boca enquanto que o nosso coração está bem longe dele. Deveríamos fundar a saúde, primeiramente não no chão do mundo, mas no coração da vida do próprio ser humano. Somente assim que o mundo se torna saudável.
Qual, então, a mensagem da Páscoa para a nossa vida hoje? A ressurreição de Jesus não significa, primeiramente, o triunfo do corpo morto saindo do túmulo e voando para o céu. A mensagem da cultura bíblica do povo oriental e, especialmente, judaica é para dizer que o Bem permanece como foi e, assim, será sempre. O mal não desaparece no mundo, mas também é incapaz de vencer o bem. A Páscoa hoje nos convida a salubrificar o nosso comportamento doentio, sanar a nossa insanidade mental e moral social e espiritual. A morte de Jesus nos chama a superar as forças do mal em nós: todos os sinais da morte potente e morte potencial como, discriminação, a violência simbólica e física contra mulher, a injustiça social, a negação do direito, a privação da liberdade, a promoção das guerras camuflada com bandeira da paz mundial e do direito humano, todos os tipos de intrigas e as formas de violência contra a vida, própria e a dos demais. Somente assim, o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição pode significar para nós cristãos: sair do “mundo mortal” e passar para a vida em plenitude. A ressurreição de Jesus é também nossa, e que deve acontecer todo o dia.
Que a luz do Ressuscitado nos torna cada vez mais cristão, mais humano, mais solidário e mais salvífico.
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Lukas Betekeneng

domingo, 26 de fevereiro de 2012

DESERTO FÉRTIL: UM ESPAÇO PROVIDENCIAL DA PROVAÇÃO E VERIFICAÇÃO DO SENTIDO DA VIDA E AMOR-FIDELIDADE

(Mc 1,12-13)
C

onforme a tradição bíblica, o deserto simboliza a tentação e superação. Compreende-se o deserto como espaço de solidão, de oração, de tentação e decisão. É nesse lugar “providencial” que acontece o reencontro do sentido da vida, de renovação dos compromissos e de fortalecimento da fidelidade; é o momento de estreitamento das relações. No entanto, é o lugar apropriado para a verificação e a provação de vida e amor-fidelidade: “Deus conduz seu povo (Ex 13,17-22) em meio a animais selvagens e satanás (Is 30,6; 34,14) para pô-lo à prova (Dt 8,2-6.15s). E nesse deserto, no meio das provações, o Israel se desesperou e murmurou contra Deus e os seus servos (cf. Ex 16,2-3; Nm 11,1-6; Ex 17,1-7; Nm 20,1-13; Dt 9,22-24; Sl 94,8-11).
Esse relato de Marcos sobre a ida de Jesus ao deserto, impelido pelo Espírito (v.12), é uma releitura da história do povo de Israel que passou pelo deserto de Sinai quando saiu do Egito rumo a terra “prometida” onde mana o leite e mel. Jesus, nesse relato é, mais que o indivíduo, a personificação do “novo Israel” (a comunidade cristã) que refaz a história dos antepassados; e assim, se realiza a profecia: “Do Egito chamei meu filho” (cf. Os 11,1). Dessa forma, o autor quis comparar com “Israel antigo” que se rebela contra Deus e não quis ouvir a sua voz; por mais que Deus o chamou, o Israel continua se distanciando dele (cf. Os 11,2). Jesus é a personificação do “novo Israel” (a comunidade cristã) que demonstra o discernimento e a fidelidade ao chamado de Deus.
Como antepassados que ficaram por 40 anos no deserto enfrentando desafios, Jesus de marcos também ficou por 40 dias no deserto e foi tentado por satanás (v. 13). Como antepassados que viveram no meio dos animais selvagens no deserto, assim também foi com Jesus. O que faz a diferença nesse relato comparativo é que o autor quer mostrar que Jesus consegue ser fiel até o fim, superando todos os desafios sem murmurar contra Deus. Se Jesus realmente tinha ido ou não para o deserto e ficou por 40 dias no meio dos animais selvagens e que foi tentado por satanás, isso não é o mais importante nesse texto. O objetivo principal desse relato comparativo foi para mostrar quem é esse Jesus de Marcos, tanto como indivíduo quanto como, principalmente, a personificação de um grupo (a comunidade dos discípulos e seguidores): ele é o mais Forte dos fortes (cf. 1,7; 3,27) e o mais Fiel dos fiéis, desde o começo até o fim (cf. Fl 2,8). Jesus é apresentado como uma personagem coerente, consistente e resistente, fiel e comprometido, corajoso e determinado. No meio de uma vida deserta Jesus demonstra a determinação de superar todos os desafios para honrar seu compromisso de vida e amor, que se imprime na prática de paz pela paz, de justiça pela justiça, de direito pelo direito, de liberdade pela libertação e de solidariedade crística. 
O mundo em que estamos vivendo, mesmo neste pleno terceiro milênio, ainda representa uma realidade, verdadeiramente, desértica: as práticas de brutalidade e/ou crueldade contra vidas e patrimônios públicos, tanto quanto, particulares, intolerância religiosa (crime de ódio que fere a liberdade de consciência e da dignidade humana), peculatos, discriminação social, cultural e racial, corrupção psicoemocional e moral espiritual, injustiça social, impunidade, fratricídio, homicídio, conjungicídio, roubos e latrocínio, os abandonos. No campo da governabilidade, por exemplo, ainda paira o espírito colonial de liderança, o feudalismo, o centralismo e tiranias tanto nas instituições políticas quanto religiosas (nas igrejas, mesquitas, sinagogas, templos inclusive nos nossos lares familiares como nas comunidades religiosas). As intrigas, brigas e guerras continuam se multiplicando em todo lado. Todo o crime é, fundamentalmente, um ato pessoal, mas vinculado ao contexto social e econômico, que produz efeitos tanto na formação como na educação do cidadão, tornando, assim, como que uma cultura. Todo esse vício ainda visto e compreendido como se fosse algo tão normal. Toda essa realidade representa o nosso deserto e nossas feras (nossa animalidade selvagem) atuais, o registro do nosso comportamento diabólico que nos desafia a cada momento. Conforme a concepção judaica, o diabo sempre aproxima do ser humano para tentá-lo (cf. Gn 3,1-7; 1Cr 21,1; Sb 2,24). Estamos dispostos em superar nossos vícios, assim, podemos nos tornar homens e mulheres de Deus mais saudáveis? Este mundo perdeu sua sensibilidade humana!
O autor diz que Jesus só começa o seu anúncio depois que João Batista foi preso (v.14). Esse fim trágico da vida do Batista é interpretado como o “necessário” para que o novo tempo da graça comece o seu curso. Que todo o tipo de vício seja preso junto com João Batista, o porta-voz de Deus sacrificado por amor. Que a força do mal chegue ao fim para que a potência do bem opere a sua graça, dando a vida nova, em sua plenitude para todos. A palavra, depois, usada aqui por autor, é para dizer que a voz de Deus que grita no deserto chamando o seu povo voltar ao caminho da vida, já foi calada pela força do mal, mas não conseguiu extingui-lo, pelo contrário, como diz o ditado popular: um cai, mas mil outros surgirão para dar a continuidade do anúncio da paz e do amor neste mundo até que Deus seja tudo em todos (cf. 1Cor 15,28). Jesus é o novo João que procura, chama, reúne todos os filhos e filhas de Deus e conduzi-lo pelo caminho da vida rumo à casa paterna.
Por isso que Jesus, ao começar seu ministério, faz questão de repetir o grito de João Batista, quando diz: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (v.15). A quaresma é o tempo de conversão, de mudança de mentalidade e atitudes, mudança de hábitos viciosos, desconstrutivos, momento de transformação de vida e amor fraterno. É o convite para cada um e cada uma de nós, homens e mulheres de Deus da humanidade. Momento de transformar a sequidão de vida desértica em terra fértil onde habita a paz, a justiça, o direito, a liberdade, a passividade, a compaixão e misericórdia. É urgente mudar a nossa maneira de ser, viver e relacionar; mudar o nosso jeito de ver o mundo e de governar. Que o novo céu e a nova terra comecem já, no aqui e agora da nossa vida terrena.
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Lukas Betekeneng